Friday, April 21, 2006

Livro para crianças... e para adultos




"- Não digas isso, mulher! Tu és bonita como o sol, com teus olhos tristes como estrelas da noite e as tuas pestanas curtas como erva recém cortada e a tua pele enrugada como as nozes de uma tarte, os teus lábios secos como areia do deserto, o teu cabelo branco como uma nuvem de verão e as tuas pernas magrinhas"como uma andorinha.

E faz o favor de apressar-te, que temos de ir bailar."


"Avós" | Chema Heras | Rosa Osuna (ilustração) | Kalandraka (livros para sonhar) | 2002

Thursday, April 20, 2006

O Mal


"O ódio revela precisamente deste conhecimento do homem ser um finito de descobertas. Por muitas línguas que se aprenda, não serão mais do que línguas. Por muitos poemas que se escreva ou se leia, não serão senão poemas. Por muitas pessoas que se conheça, não haverá um momento em que elas deixem de ser pessoas. Chinesas ou portuguesas, americanas ou africanas, mais ou menos violentas, mais ou menos amistosas, mais ou menos ignorantes, mais ou menos o que se quer que se seja. Tudo será sempre aquilo que já é. Está bem de ver que o ódio ao mundo, como não poderia deixar de ser, é ódio ao homem, à sua finitude. Nunca poderemos viver, ou esperar viver, como em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas. No homem, sonhar é demasiado concreto. Não há problema nenhum em que assim seja. Aliás, não pode ser de outro modo; é aqui que falham as possibilidades. O problema é quando se deseja que não fosse assim. O problema é quando se deseja o infinito. Não a imortalidade, mas o infinito."

O Mal, Paulo José Miranda, Cotovia

Wednesday, April 19, 2006

Ainda nada?










"De manhã,
bem cedo,
o senhor Luís cavou um buraco
enorme
na terra.


(...)

Finalmente,
o senhor Luís disse:
Ficarei à tua espera
(porque as sementes gostam
de sentir que alguém as quer e aguarda)."


Christian Voltz, Klandraka, 1997

Tuesday, April 18, 2006

O Meu e o Teu

















" O Teu não gosta de se deixar encontrar
O Meu posso atar.

O Teu é silencioso todas as noites.
O Meu volta, quando eu quiser.
(...)
O Teu gosta de castanhas.
O Meu está apaixonado pela Lua.

O Teu sabe ler livros grandes.
O Meu, antes era pequeno."



O Meu e o Teu, Peter Geißler e Almud Kunert, 2003, O Bichinho de Conto

Saturday, April 15, 2006

Alice Vieira e Bela Silva...






"Tonta, tonta a menina que chora com medo do que possivelmente nunca há-de acontecer: e se a machadinha cai e mata o menino?

E será que se deve trabalhar bem e gostar das pessoas pensando apenas na recompensa que no fina virá? Os cordões dourados terão assim tanta importância?

Leiam e descubram."

Friday, April 14, 2006

para ler e ver

"Como achava tudo aquilo maravilhoso, estranhei que o Calhau só três vezes tivesse visto o comboio.
- Há pior - disse-me ele, sossegado. - Conheces a Felícia? Pois é mais velha do que eu e nunca o viu.
- E aqui tão perto! - admirei-me eu, condoído.
Mas Calhau não se perturbou, convencido, decerto, de que isso de ver comboios não era assim muito importante para a vida..."

para ler.
Manhã Submersa, Vergílio Ferreira


e, depois, para ver...

dos amores





"e ele dizia-me, se tu
fores um poema de amor
eu apaixono-me por ti, e
eu desaparecia boca
fora para dentro dele"









O Resto da Minha Alegria, Valter Hugo Mãe, Cadernos do Campo Alegre/7

Thursday, April 13, 2006

Agostinho da Silva. Uma Antologia.

Agostinho da Silva. Uma Antologia
Organização e apresentação de Paulo Borges


Reúnem-se nesta Antologia textos fundamentais de Agostinho da Silva, ordenados temática e cronologicamente, numa introdução cómoda ao seu vasto pensamento e obra.Figura absolutamente ímpar da cultura luso-brasileira, Agostinho da Silva deixou, entre a sua vinda ao mundo, a 13 de Fevereiro de 1906, e a sua partida dele, no Domingo da Ressurreição, em 3 de Abril de 1994, uma vida exemplar e pujante de pensamento e acção: das traduções e estudos clássicos à educação popular, da insubmissão perante o antigo regime à prisão e auto-exílio no Brasil, da fundação de universidades e centros de estudo ao aconselhamento de presidentes, governos e políticas culturais, da criação de vasta rede de amizades em todo o mundo à partilha dos recursos com os mais necessitados, do domínio de múltiplas línguas à publicação de imensa obra pedagógica, cientifica, literária e filosófica, da conversão da casa de Lisboa em tertúlia aberta à intensa e viva presença mediática.Espírito livre, inconformista e original em todos os domínios, colocou as ideias e a vida ao serviço do pleno cumprimento de todas as possibilidades humanas. Em conformidade, e na linha de Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Jaime Cortesão, instituiu a superior vocação da cultura portuguesa, brasileira e lusófona como a de oferecer ao mundo o seu espírito aberto, fraterno e universalista, contribuindo para a criação de uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, ideológicas e religiosas. Inspirador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), antecipou a urgência da ética animal, bem como da consciência ecológica e ecuménica, propondo um verdadeiro diálogo inter e trans-cultural, inter e trans-religioso, entre o Norte e o Sul, o Ocidente e o Oriente, como forma de superar preconceitos e antinomias que sempre resultam em ignorância, opressão e guerra.

Tuesday, April 11, 2006

Livro da Semana Clip 6/04



O Navio de Espelhos recomenda:



Título: “Da cidade nervosa”
Autor: Enrique Vila-Matas
Edição: Campo das Letras
Preço: 15,75€
nº de páginas: 282
ano de edição: 2006





Há livros que dão vontade de abrir outros livros. “Da cidade nervosa” de Enrique Vila-Matas é um destes livros que lemos com avidez e que nos fazem rumar à Livraria com uma lista na mão. Livros que nos dão um mapa, pistas para continuar a viagem da Literatura. Assim é este livro de Enrique Vila-Matas.

“O melhor de escrever o meu livro não foi escrevê-lo, mas descobrir que existe realmente o prazer de ler, descobrir os outros, perguntar como é possível que os sinais numa placa de barro, os sinais de uma caneta ou de um lápis possam criar uma pessoa - uma Beatriz, um Falstaff, uma Ana Karenina – cuja substância excede na sua realidade, na sua longevidade personificada, a própria vida.”

Um Livro que nos faz descobrir os outros, o Outro. Que nos vem dizer que há mais livros nas estantes à nossa espera. Que há livros que as pessoas que escrevem livros que amamos leram antes de os escrever. Que há livros nos fazem encontrar outros caminhos. Que há Livros que nos fazem crescer. Assim é este. Como pode ser o caminho entre os livros. Assim é ousar caminhar diferente.

Vila-Matas escreve a partir dessa outra realidade, que ele escreve em itálico. Essa realidade tão verdadeira que só podia ter sido inventada. Essa realidade que julgamos não ser real e sobre a qual não nos questionamos.
A Leitura, dizia-nos Erza Pound, é a arte da réplica.
Essa realidade, a realidade da Literatura, quanto tem de um mundo imaginário? É tão importante viver nessa realidade como na outra.
Não passa bem uma sem a outra.

São realidades gémeas, não as podemos distinguir: A vida e essa outra vida, a da Literatura.

“Não saberia viver sem essa biblioteca que construí para meu uso pessoal, que é o mesmo que dizer que eu não seria nada nem ninguém sem a minha janela.”

[O Clip é um suplemento cultural que sai às Quintas-feiras com o Diário de Aveiro]

Sunday, April 09, 2006

Du temps & de l'instant


Jordi Savall
Montserrat Figueras
Arianna Savall
Ferran Savall
Pedro Estevan
"Du temps & de l'instant", AliaVox, 2005





"Du temps & de l'instant presenta una selección muy personal de músicas que nos emocionan por su ternura y belleza, así como por su capacidad de diálogo y armonía." Jordi Savall, Cardona, Primavera de 2005

Saturday, April 08, 2006

para ouvir, e ouvir, e ouvir, e ouvir.

Bernardo Sassetti Solo Piano, Indigo, 2005







Bernardo Sassetti Trio, Ascent, 2005
com Aj da Zupancic (violoncelo), Jean-François Lezé (vibrafone), Carlos Barreto (contrabaixo), Alexandre Frazão (bateria)





Bernardo Sassetti, Nocturno, 2005
com Carlos Barreto, Alexandre Frazão.






Banda Sonora de Alice, Música Original de Bernardo Sassetti, 2005

Friday, April 07, 2006

Albert Cossery


"Pelas quatro da tarde, o vento acalmara-se um pouco e as pesadas nuvens de aspecto lúgubre que escureciam o céu retomavam o seu percurso vagabundo. Pálidos raios de um sol agonizante doiravam tenuamente os telhados dos casebres.
Soliman E Abit, o vendedor de melões, dedicava-se, no pátio, a tecer estranhos prognósticos acerca do estado da casa e parecia levar a sério a argumentação saída do seu espírito ocioso. Dissimulava o medo, fazendo gestos idiotas como, por exemplo, tactear as paredes com a mão, para provar, como ele dizia, a solidez. Agindo desta forma, Soliman Al Abit tentava dar o ar de alguém entendido e para quem os problemas de arquitectura não são uma coisa desconhecida. Nesse momento, só Chéhata, o marceneiro, como sempre mergulhado na sua mentira inexplicável, o observava, mas este mudo espectador era tudo o que o vendedor de melões precisava, uma vez que, em presença de outras personagens, ter-se-ia visto maltratado desde o primeiro minuto. Par além disso, abusava desta liberdade provisória, adoptando, perante o perigo, a atitude de um homem experimentado e decidido." (pp 45-46)

"A Casa da Morte Certa", Albert Cossery, Antígona

Thursday, April 06, 2006

"Desde a morte de Fernanda Alves já não sabia viver. É a única pessoa que conheço que morreu de amor." Mário Cesariny


"A Fernanda morreu, e da minha vida só restam escombros. Fantasmas gritam e lamentam-se ao longo de compridos corredores que acabam na noite." (pp 29)

"Sinto-me como um débil sopro, nada construí com as mãos, a minha duração não tem sentido perante estas fotografias que nos mostram abraçados, ninguém, se alguma coisa me acontecer, virá procurar-me ao mausoléu em que se transformou a nossa casa. Todos os teus odores, todas as tuas cores, todos os teus ruídos me cingem, me impelem, de segundo em segundo, para dentro de mim próprio. E eis que me encontro, que o teu silêncio me enche da minha presença, que a minha garganta inventa um grito, os meus lábios uma palavra." (pp55)

"Fernanda", Ernesto Sampaio, Fenda - 2005

Sunday, April 02, 2006

Quando a mãe grita...



"Hoje de manhã, a minha mãe gritou comigo, e eu fiquei desfeito.

A minha cabeça voou para junto das estrelas.

O meu corpo perdeu-se por entre as ondas do mar (...) "

"Quando a mãe grita...", Jutta Bauer, 2006

"A língua do amor não é uma língua morta nem estrangeira" João Pedro Mésseder
















"Este livro é para ler nas entrelinhas,
para oferecer as primeiras palavras a uma conversa,
para descongelar o medo de falar disto e daquilo.
É para ser lido em família, à lareira, no jardim,
ao adormecer pelos maiores e pelos mais pequenos, é
para brincar e aprender a ler outros livros, é
uma pequena quantidade de matéria prima
para uma primeira conversa e
para todas as que se seguirem, é uma agenda
para fazer anotações.
Não é um manual mas pode estar sempre à mão, é
para oferecer tempo, se ele for escasso
para conversar."


O que é um homem sexual? | Ilda Taborda |Gémeo Luís (ilustração) | edição Colégio Primeiros Passos | 2004




Aceitámos a sugestão e pusémos a tocar.

http://babugem.blogspot.com

Saturday, April 01, 2006

"Passamos a vida a fugir de alguma coisa e à procura de outra. O nosso comum destino é chegar e partir."

"A ideia era simples. Roubar ao mundo um pedaço de vida. Fixá-lo para sempre com palavras. Agarrar com os dedos os sons alados, fazer deles traços escritos. Fazer do tempo marcado um livro, um objecto eleito, já que as palavras são eleitas, aproximando-nos dos deuses preguiçosos que nos olham lá do alto e riem de nós, da falha humana a que estamos condenados.
A ideia era simples. Fecharmo-nos num lugar doze horas seguidas. Suster o tempo. Dizer o que nos passava pela alma. Gravar tudo digitalmente. Depois sair dali para a rua, para a vida que corre, que não pára de correr. Ter cuidado em não perder os discos gravados que, num instante, pareciam mais importante que nós próprios. Eram um pouco da nossa vida protegida para sempre." (pp 22)

" Os Corações também se gastam", Pedro Paixão, Prime books.