Tuesday, May 16, 2006

"Gastar Palavras", Paulo Kellerman


"Um dia, contou-me estória do lápis que vai ao psiquiatra:
Ó senhor doutor, o meu problema é muito simples: não consigo decidir o que fazer, sou incapaz de optar porque ambas as possibilidades que tenho perante mim são más. Se permitir que me afiem, poderei cumprir o meu desígnio, que é pintar; mas se assim for, irei caminhando de afiação em afiação até ao final inexorável: serei afiado até morrer. Por outro lado, se impedir que me afiem, não terei bico, e, portanto, não poderei pintar; ou seja: não terei qualquer utilidade; preservarei a existência mas para quê? De que serviria viver apenas por viver, sem possibilidade de concretizar o propósito da minha existência?
Compreende o meu drama, senhor doutor? Não percebo porque concederam o livre arbítrio aos lápis, confesso que não percebo."
pp 53-54, na estória "Por vezes consigo suportar o teu silêncio"


"Gastar Palavras - Estórias", de Paulo Kellerman, Editora Deriva, 2005

Saturday, May 13, 2006

para ouvir







"Canções de Amor e Guerra", João Lóio

Saturday, May 06, 2006

O Mal de Montano


"Talvez a literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa, inventar um duplo. Ricardo Piglia diz que recordar com uma memória estranha é uma variante do duplo, mas é também uma metáfora perfeita da experiência literária. Acabo de citar Piglia e constato que vivo rodeado de citações de livros e autores. Enfermo da literatura. Se continuasse assim, ela poderia acabar por me engolir, como um epsantalho dentro de um remoinho, até fazer com que me perdesse nos seus confins sem limites. A literatura asfixia-me cada vez mais, aos cinquenta anos angustia-me pensar que o meu destino seja acabar por me converter num dicionário ambulante de citações." (pp 12-13)

Enrique Vila-Matas, O Mal de Montano, da Teorema (2002)