Wednesday, July 05, 2006

Pessoas Crescidas




"Já houve quem dissesse que um homem sem sombra não tinha consistência. Coisa estranha se pensarmos que a sombra, a sua irrealidade e fugacidade, é o que pode dar consistência a um ser. Neste sentido, o efémero, aquilo que não tem existência, embora tenha ser - como os universais -, dá um corpo a um homem, pois nenhum pode viver sem carregar a sua sombra. As pessoas crescidas tornam-se crescidas quando são acompanhadas pela sua sombra, quer dizer, pela criança que foram. E quando perdem essa criança, quando deixam de ter contacto com ela, é o adulto que julgam ser que fica ferido ou moribundo. Ninguém, na verdade, sabe exactamente o que perde quando perde o que ama. O que se ama, por se amar, está envolvido num mistério que se adensa se acaso o perdemos. Se soubéssemos exctamente o que perdemos, se soubéssemos definir com exactidão matemática o que se perdeu efectivamente, seríamos anjos em deambulação pela terra. O que se ama mede-se pelo valor da perda; a força do ser pelo medo do vazio, da ausência, do nada." (pp 13-14)

"Pessoas Crescidas - O Mal, a Infância, a Amizade"
José Manuel Heleno, Fim de Século

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